A importância de buscar a verdade no jornalismo
- Qual é a importância de buscar a verdade no jornalismo?
Sem querer imitar o conselheiro Acácio, personagem do romance O primo Basílio, de Eça de Queiroz, homem “alto, magro, vestido todo de preto” e dotado “de orelhas muito grandes, muito despegadas do crânio”, figura especializada em soltar frases banais, lugares-comuns (Nelson Rodrigues deve ter se inspirado nele para criar a expressão “o óbvio ululante”), sem querer ser um sósia do pomposo conselheiro, eu afirmo solenemente:
- É tão necessário buscar a verdade no jornalismo como beber água quando se tem sede.
Hans Friedrich Greiner, professor alemão, meu amigo, tentou ensinar-me a falar o idioma do seu país e certa vez, durante uma conversa sobre a liberdade de imprensa, ele citou a seguinte frase do estadista prussiano Otto Von Bismarck (1815-1898), pronunciada no dia 30 de setembro de 1862: “A imprensa não é a opinião pública”. (“Die Presse ist Nicht die offentliche Meinung”)
Discordei da sentença do “Chanceler de Ferro” que derrotou a França em 1871 e a isolou da Europa, e que, por causa da sua vontade imperiosa, conseguiu unificar a Alemanha, sob a hegemonia da Prússia. No entender de Bismarck, os jornais não deviam ser os ecos, os porta-vozes da opinião pública, e sim os instrumentos dos planos políticos de uma nação. Ora, no setor da imprensa, nada mais contrário à verdade do que o controle dos jornais pela censura. Onde há censura, não há liberdade, e, se não há liverdade, não há verdade.
Advogado incansável, no Brasil, do direito de a imprensa expor sempre a Verdade, com V maiúsculo, foi o eloqüente Rui Barbosa. De sua lavra é a seguinte definição:
“O jornalista ás mais das vezes é isto: um refletor da luz que vem do público, dos sentimentos populares, do meio que o cerca”.
Portanto, se o jornalista deixa de ser este refletor, ele deturpa, transforma o real no irreal, fica sob as ordens da mentira. Rui não dissociava a imprensa da verdade. Aliás, em 1920, apareceu publicada na Bahia a sua conferência “A imprensa e o dever da verdade”, da qual extrai esta passagem:
“A imprensa é a vista da nação. Por ela é que a nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alvejam, ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que lhe interessa, e se acautela do que a ameaça”.
Depois da leitura destas palavras da “Águia de Haia”, é fácil concluir: se a imprensa silencia diante da verdade, ela tapa os seus olhos e nos traz à memória o velho provérbio:
“É mais cego aquele que não quer ver do que aquele não vê”.
Rui viu a verdade quando escreveu, de janeiro a junho de 1895, vários artigos em defesa de Alfred Dreyfus (1859-1935), oficial judeu do exército francês, acusado de alta traição. Esse militar estava inocente, após receber a pena de exílio perpétuo no ano de 1894. O caso Dreyfus apaixonou o mundo e a vítima desse grande erro judiciário declarou a um diplomata português, na cidade de Genebra, que Rui Barbosa fora o primeiro a proclamar a sua inocência.
Nem sempre os órgãos da imprensa brasileira se colocaram a serviço da verdade. Aqui vai um exemplo. Na edição do dia 9 de outubro de 1921, o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, apresentou como autêntica, da autoria de Artur Bernardes, político de Minas Gerais, uma carta dirigida a Raul Soares, forjada pelos vigaristas Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães.
Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Cale a boca, jornalista”, cuja 5ª edição foi lançada pela Editora Novo Século. |