O IMITADOR!
Conheci o Kelé num sitio de um amigo do tempo de faculdade na cidade de Indiana (SP), fica perto de Presidente Prudente. Fui de ônibus até Presidente Prudente, onde meu amigo foi me buscar, cheguei cinco horas da manhã, quando paramos próxima a rodoviária de Indiana para tomar um café, pois o sitio ficava ainda uns vinte quilômetros adentro, observei que a cidade era uma cidade dormitório, os que ficavam na cidade eram as pessoas velhas, aposentados e crianças, como havia crianças naquela cidade.
No sitio chegamos lá pelas sete horas todos já estavam na “lida” e não me deram muita atenção, mas meu amigo foi me levando de carro pelo sitio e mostrando o local, mostrou a linda horta o pomar, o riacho que corria lá embaixo, era um local lindo. Na hora do almoço, um churrasco de carne de carneiro, fui apresentado aos peões e ao encarregado do sitio; o Kelé, homem de estatura mediana, apesar da idade, 60 anos, tinha poucos cabelos brancos, mas muitas rugas no rosto, braços e mãos enrugadas, usava um chapéu de palha muito velho que tirava quando se dirigia aos seus patrões e amigos dele.
Kelé já era funcionário do sitio quando meu amigo resolveu deixar o Jornalismo e suas assessorias para viver no campo e escolheu a cidade de Indiana, pois achou o nome muito interessante e a curiosidade aguçou-lhe para que fosse conhecer a tal cidade, e depois de uns dez dias na cidade descobriu esse sitio que estava a venda e fez o negocio.
Sentados bancos rústicos, compridos com encosto, ora conversava com um ora com outro até que cheguei no Kelé. Então o senhor é de São Paulo, o patrão me disse que o senhor estudou na faculdade mas ele, ele disse pra nós o tratar bem, pelo jeito o senhor é importante lá em São Paulo né. Sorri e mudei o rumo da conversa, “seo” Kelé não vi vacas por aqui e só dois cavalos ali debaixo daquela árvore.
Por um tempo ele me olhou e disse: sabe senhor, nós temos aqui umas cinquenta cabeças de gado e dez cavalos aqueles dois é para o patrão e o senhor logo mais correr o sitio. O senhor vai conhecer uma vaca que tem um mugido diferente e imitou o mugido da vaca, a imitação do som mais a expressão corporal dele foi muito engraçada, e me i interessei pelo assunto.
Senhor, continuou Kelé, aqui tem animais que nem te conto de como são interessantes, olha, tem três galinhas que só andam juntas, quando o galo quer namorar uma delas as outras duas ficam calmamente esperando ele terminar o serviço e depois as três saem cacarejando como se fossem uma orquestra e batem as asas; ele imitava as asas das galinhas movimentando os braços e dando uns pulinhos, esse Kelé era muito engraçado, ele fazia tudo com muita naturalidade.
Kelé era nordestino, veio da terrinha ainda pequeno trazido pelos padrinhos que eram também seus tios e quando eles mudaram para uma outra localidade o deixaram pois já estava crescido o suficiente para tomar conta de si próprio, na verdade ele nunca teve um outro emprego em outro lugar, só ali no sitio São Samuelito, como dizia meu amigo dono do sitio ele - o Kelé já fazia parte da propriedade era moveis e utensílios, claro que era uma brincadeira dele.
Meu amigo observou que eu estava interessado na conversa do seu gerente, então se aproximou e pediu para o Kelé contar a historia do encontro dele com um pequeno veado no sitio. Meu senhor emendou logo a historia, fui soltar as vacas para dar umas voltas no pasto, pois elas dormem no curral, e foi ai que vi o bichinho, muito pequenino, dando uns pulinhos e abanando o rabinho (ele balançava as nádegas imitava o rabo do veadinho), ai soltei as vacas e ele ficou ali na minha frente, saltitando, balançando a cabeça para lá e para cá, eu acho que ele pensou que eu fosse a mãe dele, ele, meu senhor, queria mamar em mim e sem cerimônia imitou o que o veadinho queria fazer nele.
Esse kelé é uma figura e das mais interessantes não tinha maldade, só São Samuelito para entender esse nordestino e dos bons.
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